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9.3.14

Recomendando: O Reverso da Medalha



O Reverso da Medalha começa na festa de aniversário de 90 anos de Kate Blackwell. Ela está cercada de amigos, conhecidos, pessoas influentes e poderosas, e também pelos fantasmas de seu passado. Ao longo do trama conheceremos a história de seu pai, Jamie McGregor, um escocês pobre que parte para a África em busca de fortuna em 1883. E ele irá consegui-la de formas inimagináveis. Essa fortuna será herdada por Kate Blackwell, filha de Jamie, bem como todos os erros de seu pai. Sozinha, Kate irá se tornar uma das empresárias mais poderosas do mundo, comandará um verdadeiro império.
O livro conta a história de mais três pessoas da família Blackwell, o filho de Kate, Tony, e suas duas netas, Eve e Alexandra. Mas é sempre possível observar a participação de Kate no destino das personagens. Todos serão influenciados por ela. O livro termina na mesma festa em que se inicia, em 1982.
Um livro sobre poder, vingança e manipulação. Para se surpreender.
Escrito por Sidney Sheldon.


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3.3.14

Todo filho é Pai da morte de seu Pai

Fabrício Carpinejar

Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão, já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende da nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas. Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente? 
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:
- Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável. 
Embalou o pai de um lado para o outro. 
Aninhou o pai. 
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrando:
- Estou aqui, estou aqui, pai.

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.

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13.2.14

O Grilo

                     Passei apressada, como sempre. Andava pela rua como todas as pessoas se acostumaram a andar: cabeça baixa, atrasada, estressada, de mau-humor com a vida. E não haveria de acontecer nada muito diferente disso, até que... Eu pisei em alguma coisa.
                     Acho que as outras pessoas não teriam parado, mas eu não pude. Primeiro, veio o momento de pânico. Pelo barulho, poderia ser uma barata. Na verdade, o pânico viria independente de qual fosse o representante dos insetos. Não suporto insetos. Levantei o pé tão vagarosamente quanto pude. Respirei fundo, e olhei.
                     Era um grilo. Mas não daqueles tradicionais grandes e verdes, nem mesmo daqueles pequeninos e pretos. O meu grilo era todo colorido: tinha listras amarelas e pretas nas antenas e na cabeça, duas grandes asas marrons que escondiam costas vermelhas como rosas. Ele era lindo. De todos os grilos do mundo em que poderia ter pisado, o destino escolheu logo uma obra de arte. Eu o matei.
                     A pior parte é a consciência de que não havia sido algo materialmente importante para mim. Pisei nele como quem pisa em uma folha, uma flor, um simples graveto. Destruí, em alguns segundos, toda sua beleza, toda sua frágil natureza animal. Parei para sempre com seu canto noturno.
                     Fiquei imóvel, apática, um tanto deprimida. Não sabia exatamente se deveria ir embora e deixá-lo esmagado na calçada ou se deveria tirá-lo de lá e oferecer um funeral apropriado. Mas acho que ninguém oferece funerais a grilos assassinados.
                     Pobre do grilo. Não precisava ter morrido. Interpôs-se em meu caminho, descuidado com os homens que passam apressados. Amaldiçoei todos os canteiros de flores, que só servem para atrair os grilos e matá-los. Agora eu ando mais calmo, atento aos meus próprios passos. Nunca me esqueço daquele dia. Como as coisas são frágeis!
                     É preciso ter mais cuidado.

A Moça.


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5.2.14

O Homem e os deuses



"Todos os erros e incompetências do Criador chegaram ao seu clímax no homem. Como peça de um mecanismo, o homem é o pior de todos; comparados com ele, até um salmão ou um estafilococo são máquinas sólidas e eficientes. O homem transporta os piores rins conhecidos da zoologia comparativa, os piores pulmões e o pior coração. Seus olhos, considerando-se o trabalho que são obrigados a desempenhar, são menos eficientes do que o olho de uma minhoca; o Criador de tal aparato ótico, capaz de fabricar um instrumento tão cambeta, deveria ser surrado por seus fregueses."

H.L. Mencken - 1919



"Onde fica o cemitério dos deuses mortos? Algum enlutado ainda regará as flores de seus túmulos? Houve uma época em que Júpiter era o rei dos deuses, e qualquer homem que duvidasse de seu poder era ipso facto um bárbaro ou um quadrúpede. Haverá hoje um único homem no mundo que adore Júpiter? E que fim levou Huitzilopochtli? Em um só ano – e isto foi há apenas cerca de quinhentos anos – 50 mil rapazes e moças foram mortos em sacrifício a ele. Hoje, se alguém se lembra dele, só pode ser um selvagem errante perdido nos cafundós da floresta mexicana. Falando em Huitzilopochtli, logo vem à memória seu irmão Tezcatilpoca. Tezcatilpoca era quase tão poderoso: devorava milhares de virgens por ano. Levem-me a seu túmulo: prometo chorar e depositar uma couronne des perles. Mas quem sabe onde fica? (…) Arianrod, Nuada, Argetlam, Morrigu, Tagd, Govannon, Goibniu, Gunfled, Odim, Dagda, Ogma, Ogurvan, Marzin, Dea Dia, Marte, Iuno Lucina, Diana de Éfeso, Saturno, Robigus, Furrina, Plutão, Cronos, Vesta, Engurra, Zer-panitu, Belus, Merodach, Ubililu, Elum, U-dimmer-an-kia, Marduk, U-sab-sib, Nin, U-Mersi, Perséfone, Tammuz, Istar, Vênus, Lagas , Belis, Nirig, Nusku, Nebo, Aa, En-Mersi, Sin, Assur, Apsu, Beltu, Elali, Kusky-banda, Mami, Nin-azu, Zaraqu, Qarradu, Zagaga, Ueras. Peça ao seu vigário que lhe empreste um bom livro sobre religião comparada: você encontrará todos eles devidamente listados. Todos foram deuses da mais alta dignidade – deuses de povos civilizados – adorados e venerados por milhões. Todos eram onipotentes, oniscientes e imortais. E todos estão mortos." - H.L. Mencken.

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31.5.13

Um Papo com Carpinejar

Sempre Um Papo, com Fabrício Carpinejar (lançamento de seu livro Mulher Perdigueira). Não perca!


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Um Papo com Adélia Prado

Programa Sempre Um Papo - Adélia Prado

Um papo sobre a beleza, a obra de arte, a forma das coisas e a essência poética do mundo, se ela existe. Não perca. 




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26.5.13

Necrológio dos Desiludidos do Amor

Fernanda Torres interpreta (maravilhosamente) a poesia Necrológio dos Desiludidos do Amor, de Carlos Drummond de Andrade.


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25.5.13

As 10 livrarias mais incríveis!

O blog da Estante Virtual, inspirados pelo sucesso do post "As 12 bibliotecas mais incríveis do mundo", resolveu ir atrás das livrarias que merecem nosso carinho e atenção. Achei a matéria tão precisa, informativa e tão, tão interessante, que resolvi trazê-la para vocês. Vocês podem conferi-la também no próprio site da Estante Virtual: http://www.estantevirtual.com.br/as-10-livrarias/

Classificada como a livraria mais bonita do mundo pelo The Guardian, a Boekhandel Selexyz Dominicanen, na Holanda, fica localizada dentro de uma igreja dominicana do século XII. A estrutura gótica foi conservada e adicionaram apenas as grandes estantes para guardar a vasta seleção de livros. Em segundo lugar, encontramos a Livraria El Ateneo, na Argentina, que foi construída no Teatro Grand Spendid, reconhecido pelas grandes apresentações de tango, é claro! Sua beleza é inegável.



Não muito longe, na cidade do México, encontramos uma livraria bem diferente. A El Pendulo, além de livraria, também é bar e café e possui uma decoração inusitada formada por grandes prateleiras, milhares de livros, e … plantas! Seguindo uma linha ainda de maior excentricidade, temos a Livraria Cook and Books. Nela é possível encontrar livros pendurados no teto e mesas em formato de carros de época. Aliando o prazer de ler e o de degustar uma boa refeição, ela se transformou em um dos maiores centros turísticos de Bruxelas.


A verdade seja dita: a escadaria da Livraria Lello e Irmão, em Portugal, não é de tirar o fôlego?! Não só por seu tamanho, como também por sua beleza. Dizem por aí que ela até inspirou as escadarias de Hogwarts, a escola de bruxos da série Harry Potter. E não é que é mesmo parecida! Já a histórica Shakespeare and Company nasceu no centro de Paris, em 1919, e foi fundada pela americana Sylvia Beach. A livraria recebeu visitas de grandes escritores como Ernest Hemingway, Ezra Pound e F. Scott Fitzgerald. Com a invasão dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, ela foi fechada. Mas, felizmente, em 1951, George Whitman abriu uma nova livraria e a batizou com o mesmo nome. Hoje é considerada a livraria mais charmosa do mundo e possui mais de 8 mil títulos!


Se por um lado o museu Palazzo delle Esposizioni, em Roma, exibe uma arquitetura neoclássica, a livraria dentro dele, a The Bookàbar Bookshop, não tem nada de clássica e possui um estilo bem mais moderno. Ela ocupa um espaço de mais de 450 metros quadrados repleto de livros sobre arte, arquitetura e design. Outra livraria de estilo bem moderno é a Poplar Kids Republic, na China. Construída para o público infantil, a livraria possui mais de 3 mil exemplares ilustrados e também oferece cursos de arte e recreação para a criançada!


Tá achando que livrarias assim só existem lá fora? Ao contrário do que pensam alguns, não é preciso ir tão longe para nos deparamos com livrarias incríveis. Aqui no Brasil temos dois grandes exemplos: a Livraria da Vila e a Livraria Cultura, ambas em São Paulo. A Livraria da Vila fica no bairro Jardim Paulista, na rua Alameda Lorena, e possui cerca de 22 mil livros, sendo a maioria dedicada também às crianças. Já a Livraria Cultura fica na Avenida Paulista e foi uma das pioneiras em criar espaços confortáveis para os leitores apreciarem a leitura de um bom livro dentro da própria loja.


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12.5.13

Para Sempre

Por que Deus permite 
que as mães vão se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não se apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
- mistério profundo - 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho.   

Carlos Drummond de Andrade
Feliz Dia das Mães.

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4.5.13

O Amor é uma falácia!

Max Shulman 
Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.

Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Petey, no entanto, não pensava assim.

Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.

- Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.

- Couro preto – balbuciou ele.

- Couro preto? – disse eu, interrompendo a minha corrida.

- Quero uma jaqueta de couro preto – disse.

Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.

- Por que você quer uma jaqueta de couro preto?

- Eu devia ter adivinhado – gritou ele, socando a cabeça – Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar uma jaqueta de couro preto.

- Quer dizer – perguntei incrédulo – que estão mesmo usando jaquetas de couro preto outra vez?

- Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?

- Na biblioteca – respondi, citando um lugar não freqüentado pela pessoas importantes da Universidade.

Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

- Preciso conseguir uma jaqueta de couro preto – disse, exaltado – Preciso mesmo.

- Por que, Petey? Veja a coisa racionalmente. Jaquetas de couro preto são desconfortáveis. Impedem o movimento dos braços. São pesadas, são feias, são …

- Você não compreende – interrompeu ele com impaciência – é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?

- Não – respondi, sinceramente.

- Pois eu sim – declarou ele – daria tudo para ter uma jaqueta de couro preto. Tudo.

Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.

- Tudo? – perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.

- Tudo – confirmou ele, em tom dramático.

Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar uma jaqueta de couro preto. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um malão, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.

Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.

Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.

Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.

Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa – um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho – sem nem sequer umedecer os dedos.

Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.

- Petey – perguntei – você ama Polly Spy?

- Eu acho que ela é interessante – respondeu – mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?

- Você – continuei – tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?

- Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por quê?

- Existe alguém – perguntei – algum outro homem que ela goste de maneira especial?

- Que eu saiba não. Por quê?

Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.

- Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?

- Acho que sim. Aonde você quer chegar?

- Nada, ainda – respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.

- Onde é que você vai? – quis saber Petey.

- Passar o fim de semana em casa.

Atirei algumas roupas dentro da mala.

- Escute – disse Petey, apegando-se com força ao meu braço – em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar uma jaqueta de couro preto?

- Posso até fazer mais do que isso – respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.

- Olhe – disse a Petey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.

- Santo Pai – exclamou Petey com reverência. Passou as mãos na jaqueta e depois no rosto.

- Santo Pai – repetiu, umas quinze ou vinte vezes.

- Você gostaria de ficar com ele? – perguntei.

- Sim – gritou ele, apertando a jaqueta contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. – O que quer em troca?

- A sua namorada – disse eu, não desperdiçando palavras.

- Polly? – sussurrou Petey, horrorizado. – Você quer a Polly?

- Isso mesmo.

Ele jogou a jaqueta pra longe.

- Nunca – declarou resoluto.

Dei de ombros.

- Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.

Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Petey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido em dois. Primeiro olhava para a jaqueta com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para a jaqueta. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para a jaqueta com pura lascívia.

- Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly – balbuciou. – Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.

- Isso mesmo – murmurei.

- Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?

- Nada – respondi.

- Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.

- Experimente a jaqueta – disse eu.

Ele obedeceu. A jaqueta ficou bem larga, passando da cintura. Ele parecia um motoqueiro mal vestido da década de cinqüenta.

- Serve perfeitamente – disse, contente.

Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.

- Negócio feito?

Ele engoliu a seco.

- Feito – disse, e apertou a minha mão.

Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.

O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.

- Puxa, que jantar interessante! – disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.

- Puxa, que filme interessante! – disse ela, quando saímos do cinema.

Levei-a para casa.

- Puxa, que noite interessante – disse ela, ao nos despedirmos.

Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Petey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.

Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.

- Polly – disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. – Esta noite vamos até o parque conversar.

- Ah, que interessante! – respondeu ela.

Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.

Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.

- Sobre o que vamos conversar? – perguntou.

- Sobre Lógica.

Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:

- Interessante!

- A Lógica – comecei, limpando a garganta – é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.

- Interessante! – exclamou ela, batendo palmas de alegria.

Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.

- Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.

- Vamos – animou-se ela, piscando os olhos com animação.

- Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.

- Eu estou de acordo – disse Polly, fervorosamente. – Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.

- Polly – disse eu, com ternura – o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?

- Não – confessou ela. – Mas isso é interessante. Quero mais. Quero mais!

- Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa – disse eu e, quando ela parou, continuei:

- Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.

- É mesmo? – espantou-se Polly. – Ninguém?

Contive a minha impaciência.

- É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.

- Você conhece outras falácias? – perguntou ela, animada. – Isto é até melhor do que dançar.

Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.

- A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.

- Eu conheço uma pessoa exatamente assim – exclamou Polly. – Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique…

- Polly – interrompi, com energia – é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.

- Nunca mais farei isso – prometeu ela, constrangida. – Você está bravo comigo?

- Não, Polly – suspirei. – Não estou bravo.

- Então conte outra falácia.

- Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.

- Vamos – exclamou ela, alegremente.

Franzi a testa, mas continuei.

- Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?

- É claro – respondeu ela imediatamente.

- Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.

- É mesmo – disse ela, pensativa. – Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.

- Mas ele pode fazer tudo – lembrei-lhe.

Ela coçou a cabeça linda e vazia.

- Estou confusa – admitiu.

- É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?

- Conte outra dessas histórias interessantes – disse Polly, entusiasmada.

Consultei o relógio.

- Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.

Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente interessante, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.

Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.

Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:

- Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.

Ela estremeceu de emoção.

- Ouça com atenção – comecei – Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher é aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.

Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.

- Isso é horrível, horrível! – soluçou.

- É horrível – concordei – mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?

Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.

- A seguir – disse, controlando o tom da voz – discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por quê, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

- Pois olhe – disse ela, entusiasmada – esta é a ideia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.

- Polly – disse eu, com impaciência – o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes, sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.

- Continuo achando a ideia interessante – disse Polly.

- Santo Cristo! – murmurei, com impaciência. - A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.

- Essa parece ser boa – foi a reação de Polly.

- Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.

- É mesmo, é mesmo – concordou Polly, sacudindo a cabeça. – Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.

- Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos – disse eu, friamente – gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.

- Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes – disse Polly – Eu quase não vejo ele no cinema.

Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.

- A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.

- Que engraçadinho! – deliciou-se Polly.

- Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: ‘o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser’. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?

Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência – o primeiro que vira – surgiu nos seus olhos.

- Não é justo! – disse ela com indignação – Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar…

- Polly, estou orgulhoso de você.

- Ora – murmurou ela, ruborizando de prazer.

- Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.

- Vamos lá – disse ela, com um abano distraído da mão.

Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha ideia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.

Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.

Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.

- Polly - disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore – hoje não falaremos de falácias.

- Puxa! – disse ela, desapontada.

- Minha querida – prossegui, favorecendo-a com um sorriso – hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.

- Generalização apressada – exclamou ela, alegremente.

- Perdão? – disse eu.

- Generalização apressada – repetiu ela. – Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?

Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.

- Minha querida – disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão – cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.

- Falsa Analogia – disse Polly prontamente – eu não sou um bolo, sou uma pessoa.

Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.

- Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. Por favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.

Pronto, pensei; está liquidado o assunto.

- Ad misericordiam – disse Polly.

Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.

- Bem, Polly – disse, forçando um sorriso – não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.

- Aprendi mesmo – respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.

- E quem foi que ensinou a você, Polly?

- Foi você.

- Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.

- Hipótese Contrária ao Fato – disse ela sem pestanejar.

Enxuguei o suor do rosto.

- Polly – insisti, com voz rouca – você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.

- Dicto Simpliciter – brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.

Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.

- Você vai ou não vai me namorar?

- Não vou – respondeu ela.

- Por que não? – exigi.

- Porque hoje à tarde eu prometi a Petey Bellows que eu seria a namorada dele.

Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!

- Aquele rato! – gritei, chutando a grama. – Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.

- Envenenar o poço – disse Polly – E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.

Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.

- Muito bem – disse – você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Petey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Petey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Petey Bellows?

- Posso sim – declarou Polly – Ele tem uma jaqueta de couro preto.

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1.5.13

Dia da Literatura Brasileira

O dia primeiro de maio não é só feriado do Dia do Trabalho. Hoje é aniversário de uma ilustre figura brasileira, José de Alencar. E por conta do seu aniversário e de sua importância para a história do Brasil, 1º de maio é também o Dia da Literatura Brasileira. É dia de ler Carlos Drummond, Lygia Fagundes Telles, Luís Fernando Veríssimo, Cecília Meireles, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Mário Quintana, e claro, José de Alencar. Sem esquecer Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Olavo Bilac, Ferreira Gullar, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Mário de Andrade, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, Fernando Sabino, Hild Hilst, Lya Luft, Mário Prata, Millôr, Leminsk, Pedro Bandeira, Rubem Braga, Cora Coralina, e tantos outros. A língua portuguesa é maravilhosamente poética. O Brasil tem preciosidades que até os brasileiros desconhecem. Neste dia, aproveite, pesquise, conheça, devore.


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27.4.13

Ele tinha coisas de menino...

O meu amado tinha coisas de menino:
dormia abraçado a mim feito criança,
gostava de doce e de ganhar camisas novas de presente.
Usava a água-de-colônia que lhe dei e ria:
"Pareço uma Paulina Bonaparte."

Olhava-me tão agradecido ao menor cuidado
como limpar seus óculos ou trazer-lhe água,
que era como se nunca tivesse tido infância.
(Gostava de rir, embora chorasse algumas vezes a meu lado.)
Abria as portas grandes da varanda de nosso quarto
sobre as florestas da Gávea, e de tudo se admirava:
"Espantoso! Qual o sentido disso?"

Quando eu não estava em casa, ficava aflito:
telefonava para conferir se eu voltara ao nosso cotidiano:
"Sabendo que você está aí, meu mundo fica em ordem."
O meu amado tinha coisas de menino:
mas seus olhos eram sábios
de entenderem quase toda a miséria deste mundo.

Lya Luft, em Fatal.

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23.4.13

Dia do Livro

Oh! Bendito o que semeia 
Livros ... livros à mão cheia ...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar. 

Castro Alves 


Feliz Dia Mundial do Livro

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13.4.13

... Aos meus Poetas


" [...] Aos poetas de todos os tempos, devo a sobrevivência da minha alma." 

Paulo Mendes Campos

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3.4.13

Isso é Água

Este é o discurso de David Foster Wallace, escritor americano, na abertura da colação de grau da turma de 2005 da Kenyon College. O discurso causou tanto impacto que foi lançado como livro em 2009, um ano após ele ter cometido suicídio. A parte chata, neste caso, é que o discurso foi alterado à revelia dos editores, cortando partes importantes e interessantes do discurso. Mas, graças à internet, o discurso está disponível em áudio no Youtube, e num transcrito que ficou online tempo suficiente para ser arquivado. Abaixo, está a tradução do Life on a Plate para esse transcrito, pois não foi encontrada uma tradução da versão original do discurso.


Estes dois jovens peixes estão nadando por aí, e por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção contrária, que acena para eles e diz “Bom dia, meninos, como está a água?” E os dois jovens peixes continuam nadando por um tempo, até que eventualmente um deles olha para o outro e fala: “O que diabos é água?”

Esse é um requerimento padrão dos discursos de colação de grau norte-americanos, o emprego de pequenas histórias meio enigmáticas. O conto acaba sendo um dos melhores, menos encheção de linguiça do gênero, mas se você está preocupado que eu planejo me apresentar aqui como o velho peixe sábio explicando o que é água para vocês jovens peixes, por favor, não fique. Eu não sou o velho peixe sábio. O objetivo da história dos peixes é que as mais óbvias e importantes realidades são muitas vezes as mais difíceis de serem vistas e discutidas. Exposto como uma sentença em inglês, é claro que isso é somente uma platitude banal, mas o fato é que nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, platitudes banais podem ter uma importância de vida ou morte, ou é isso que eu desejo sugerir nessa manhã linda e seca.

É claro que o principal requerimento de discursos como esse é que eu devo falar sobre o significado da sua educação em artes liberais, devo tentar explicar por que o diploma que vocês estão prestes a receber tem um valor humano real ao invés de somente retorno material. Então vamos falar sobre o cliché mais difundido nos discursos de colação de grau, que diz que uma educação em artes liberais não se trata apenas de te encher de conhecimento mas sim serve para te “ensinar a pensar”. Se você é como eu era quando estudante, você nunca gostou de escutar isso, e você tende a se sentir um pouco insultado pela afirmação de que você precisou que alguém te ensinasse a pensar, já que o fato de você ter entrado numa faculdade tão boa como essa parece uma prova de que você já sabe como pensar. Mas eu vou mostrar para você que o cliché das artes liberais acaba não sendo ofensivo, porque a parte significante da educação em pensar que nós devemos receber num lugar como esse, não diz respeito à capacidade de pensar, mas sim à escolha sobre o que pensar. Se seu total livre arbítrio sobre o que pensar parece muito óbvio para perder tempo discutindo, peço que pense sobre peixes e água, e que deixe de lado por apenas alguns minutos seu ceticismo sobre o valor do totalmente óbvio.

Aqui vai uma outra historinha didática. Lá estão dois caras sentados num bar numa parte remota do Alaska. Um dos caras é religioso, e o outro ateísta, e os dois estão discutindo a existência de Deus com aquela intensidade especial que aparece mais ou menos depois da quarta cerveja. E o ateu diz: “Olha, não é como se eu não tivesse razões para não acreditar em Deus. Não é como se eu nunca tivesse experiência com essas coisas Deus e rezar. Mês passado mesmo eu saí do acampamento naquela terrível nevasca, e eu estava totalmente perdido e eu não conseguia ver nada, e estava 10° abaixo de zero, e então eu tentei: eu me ajoelhei na neve e gritei ‘Oh, Deus, se existe um Deus, eu estou perdido nessa nevasca, e eu vou morrer se você não me ajudar.” E agora, no bar, o religioso olha para o ateu, confuso. “Bem, então você deve acreditar agora,” ele diz, “afinal de contas, você está aqui, vivo.” O ateu apenas vira os olhos. “Não, cara, tudo que aconteceu foi que uns esquimós estavam passando e me mostraram o caminho de volta para o acampamento.”

É fácil passar essa história por um tipo de análise padrão das artes liberais: a mesma experiência pode significar duas coisas totalmente diferentes para duas pessoas diferentes, dadas as duas diferentes crenças e duas diferentes maneiras de construir significados a partir de experiências destas pessoas. Porque nós valorizamos a tolerância e a diversidade de crença, em nenhum momento da nossa análise das artes liberais nós queremos alegar que a interpretação de um cara é verdadeira e a do outro é falsa ou ruim. O que não tem problema, exceto que nós também acabamos nunca falando de onde esses padrões e crenças individuais vem. O que significa: de onde elas vem de dentro dos dois caras. Como se a mais básica das orientações de uma pessoa em relação ao mundo, e o significado da experiência dela foram de alguma maneira embutidas, como a altura ou o número dos sapatos; ou automaticamente absorvida da cultura, como a linguagem. Como se a maneira que construímos significado não fosse resultado de uma escolha pessoal, intencional. Além do mais, tem todo o problema da arrogância. O não-religioso está tão certo em dispensar a possibilidade que os esquimós tinham algo a ver com sua prece por ajuda. Verdade, há um monte de pessoas religiosas que parecem arrogantes e certas sobres suas interpretações, também. Eles provavelmente são ainda mais repulsivos que os ateístas, ao menos para a maioria de nós. Mas o problema dos dogmatistas religiosos é exatamente o mesmo do incrédulo da história: certeza cega. Uma mentalidade fechada que acaba num aprisionamento tão total que o prisioneiro nem sabe que está trancafiado.

A questão aqui é o que eu acho que essa parte de me ensinar como pensar realmente significa: ser um pouco menos arrogante. Ter uma consciência crítica sobre mim mesmo e sobre minhas certezas. Porque uma imensa porcentagem das coisas que eu costumo automaticamente ter certeza está, como acontece, totalmente errada e enganada. Eu aprendi isso da maneira difícil, assim como eu prevejo que vocês também.

Eis um exemplo do quão absolutamente errado é uma coisa que eu tenho a tendência de estar automaticamente certo sobre: tudo em minha experiência imediata apóia minha crença profunda que eu sou o centro absoluto do universo; a mais real, intensa e importante pessoa na existência. Nós raramente pensamos sobre esse egoísmo meio natural e básico, porque ele é tão repulsivo socialmente, mas é praticamente o mesmo para todos nós. É a nossa configuração padrão, impressa em nossos circuitos no nascimento. Pense nisso: não há nenhuma experiência que você teve em que você não fosse o centro absoluto. O mundo como você o conhece está logo ali na sua frente, ou atrás de você, à sua esquerda ou direita, na sua TV, ou no seu monitor, e assim por diante. Os pensamentos e sentimentos de outras pessoas devem ser comunicados a você de alguma maneira, mas os seus são tão imediatos, urgentes, reais.

Por favor, não se preocupe em pensar que eu estou pronto para te dar um sermão sobre compaixão ou altruísmo ou as chamadas “virtudes”. Não se trata de virtude. É uma questão da minha escolha em fazer o esforço para de alguma maneira alterar ou me livrar da minha configuração natural, impressa em meus circuitos, que é ser profunda e literalmente egoísta, e ver e interpretar tudo pelas lentes do meu ser. Pessoas que podem ajustar sua configuração natural desta maneira são muitas vezes descritas como “bem ajustadas”, o que sugiro para vocês, não é um termo acidental.

Dado o ambiente de triunfo acadêmico aqui, uma pergunta óbvia é o quanto deste esforço de ajustar nossa configuração natural envolve conhecimento ou intelecto real. Essa questão é capciosa. Provavelmente o maior perigo da educação acadêmica, ao menos no meu caso, é que ela reforça minha tendência de super-intelectualizar as coisas, de me perder em argumentos abstratos dentro da minha cabeça ao invés de simplesmente prestar atenção a o que está acontecendo bem na minha frente. Prestar atenção a o que está acontecendo dentro de mim.

Como vocês já devem saber, é extremamente difícil ficar alerta e atento, ao invés de ficar hipnotizado pelo monólogo constante dentro da sua cabeça (talvez isso esteja acontecendo agora). Vinte anos após minha própria formatura, eu gradualmente compreendi que o clichê das artes liberais sobre “ensinar você a pensar” é na verdade a abreviação de uma ideia muito mais profunda, mais séria: aprender a pensar na verdade significa aprender a exercer algum controle sobre como e o que você pensa. Significa estar consciente e atento o suficiente para escolher ao que você presta atenção e para escolher como você constrói significado a partir da experiência. Porque se você não consegue exercer esse tipo de decisão na vida adulta, você estará em apuros.

Lembre-se do velho clichê “a mente é um excelente servo, mas um mestre terrível”. Este, como tantos outros clichés, tão chato e sem graça na superfície, na verdade expressa uma grande e terrível verdade. Não é nenhuma coincidência que adultos que cometem suicídio com armas de fogo quase sempre atiram na própria cabeça. Eles atiram no mestre terrível. E a verdade é que a maioria desses suicidas já está morta muito antes de puxar o gatilho. E eu sugiro que é este o valor real, sem perda de tempo, que a sua educação de artes liberais supostamente oferece: como deixar de passar a sua confortável, próspera e respeitável vida adulta morto, inconsciente, escravo da própria cabeça e da sua configuração natural de ser unicamente, completamente e imperialmente sozinho, todos os dias.

Isto pode soar como uma hipérbole, ou non-sense abstrato. Vamos tornar isso palpável. O fato é que vocês graduandos não tem ainda nenhuma ideia do que “dia-a-dia” realmente significa. Acontece que existem partes, grandes partes da vida adulta americana que ninguém fala em discursos de colação de grau. Uma dessas partes envolve chatice, rotina e frustrações triviais. Os pais e outras pessoas mais velhas aqui saberão muito bem do que eu estou falando.

Para exemplificar, vamos dizer que é um dia adulto habitual, e você levanta pela manhã, vai para o seu trabalho desafiador, engomado, diplomado, e você trabalha duro por oito ou dez horas, e no fim do dia você está cansado e um tanto estressado, e tudo que você quer é ir pra casa e comer um bom jantar e talvez relaxar durante uma hora e então cair na cama cedo porque, é claro, você precisa acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo. Mas aí você lembra que não tem comida em casa. Você não teve tempo de fazer compras essa semana por causa do seu trabalho desafiador, e então agora depois do trabalho, você tem que entrar no seu carro e dirigir até o supermercado. É o fim de um dia útil, e o transito está apto a estar muito ruim. Então chegar à loja demora muito mais do que deveria, e quando você finalmente chega lá o supermercado está muito cheio, porque é claro que é aquela hora do dia em que todas as outras pessoas com empregos também tentam encaixar a tarefa de fazer mercado. E o mercado está iluminado, e infundido com música de elevador ou pop e com certeza é o último lugar que você quer estar mas você não consegue entrar e sair rápido, você tem que andar por todos os enormes, super-iluminados e confusos corredores da loja para conseguir as coisas que você quer e você tem que manobrar o bagulho do seu carrinho por todas aquelas outras pessoas cansadas e com pressa com carrinhos (etc, etc, etc, estou cortando algumas coisas porque essa é uma cerimônia longa) e eventualmente você pega todos os itens do seu jantar, só que agora não tem caixas abertos o suficiente, apesar de ser a correria do final do dia. Então a fila é incrivelmente longa, o que é estúpido e enfurecedor. Mas você não pode descontar sua raiva na frenética senhora trabalhando no caixa, que é escravizada num trabalho cujo o tédio e a falta de sentido diários ultrapassam a imaginação de qualquer um de nós aqui numa prestigiosa faculdade.

Mas de qualquer maneira, você finalmente chega na frente da fila, e paga pela sua comida, e te mandam “ter um bom dia” numa voz que é a voz total da morte. Então você pega suas horríveis e frágeis sacolas de plástico com suas compras que estão dentro do seu carrinho, com uma roda torta que puxa irritantemente para a esquerda, todo o caminho através do estacionamento abarrotado, irregular e sujo, e então você tem que dirigir todo o caminho de volta pra casa por um transito da hora do rush, devagar, demorado, cheio de SUVs, etc, etc.

Todo mundo aqui já fez isso, é claro. Mas não tem sido parte da rotina de verdade de vocês graduandos, dia após semana após mês após ano. Mas será. E muito outras rotinas fatigantes, maçantes e sem sentido além dessa também serão. Mas essa não é a questão. A questão é que porcarias triviais e frustrantes como essa são exatamente onde o trabalho de escolher irá entrar. Já que os congestionamentos e corredores entupidos e longas filas de caixa me dão tempo para pensar, e se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar e a o que prestar atenção, eu irei ficar brabo e arrasado toda a vez que eu tiver de ir às compras. Porque minha configuração natural é a certeza que situações como essa se tratam somente de mim. Sobre a minha fome e o meu cansaço e o meu desejo de apenas chegar em casa, e irá parecer por tudo que existe que todas as outras pessoas só estão no meu caminho. E quem são todas essas pessoas no meu caminho? E veja o quão repulsivas a maioria delas são, e o quão estúpidas e parecidas com vacas e inexpressivas e não-humanas elas parecem na fila do caixa, ou o quão inoportunas e rudes são as pessoas falando alto no celular no meio da fila. E veja o quão profundamente e pessoalmente injusto é isso.

Ou, é claro, se eu estiver numa versão mais socialmente consciente das artes liberais da minha configuração padrão, eu posso passar o tempo no trânsito do fim do dia com nojo de todas as enormes, estúpidas SUVs e Hummers e pick-ups V-12, queimando todo o conteúdo do seus tanques egoístas e esbanjadores de 40 galões de gasolina, e eu posso me estender no fato de que os adesivos patriotas ou religiosos sempre parecem estar nos maiores, mais repugnantemente egoístas dos carros, dirigidos pelos mais feios, mais sem consideração e mais agressivos dos motoristas. E eu posso pensar como os filhos dos nossos filhos vão nos desprezar por gastar todo o combustível do futuro, e provavelmente por foder com o clima, e o quão mimados e estúpidos e egoístas e repugnantes todos nós somos, e como a sociedade de consumo moderna fede, e assim por diante. Você entendeu a ideia.

Se eu escolho pensar desta maneira na loja e na rua, tudo bem. Muitos de nós o fazemos. Exceto que pensar desta maneira tende a ser tão fácil e tão automático que não precisa ser uma escolha. É a minha configuração natural. É a maneira automática em que eu percebo as partes enfadonhas, frustrantes e cheias da vida adulta quando eu estou operando na crença automática e inconsciente de que eu sou o centro do mundo, e que minhas necessidades e sentimentos imediatos são o que deveria determinar as prioridades do mundo.

Acontece que, é claro, existem maneiras totalmente diferentes de se pensar sobre esses tipos de situações. Nesse trânsito, de todos esses veículos parados ou andando em marcha lenta na minha frente, não é impossível que algumas pessoas nessas SUVs tenham estado em acidentes de carro horríveis no passado, e agora tem tanto medo de dirigir que seu terapeuta mandou eles fazerem de tudo, inclusive comprar uma enorme e pesada SUV para que eles se sintam seguros o suficiente para dirigir. Ou que o Hummer que cortou minha frente talvez esteja sendo guiado por um pai cujo filho pequeno está machucado ou doente no assento ao lado dele, e ele está tentando chegar ao hospital, e ele está com uma pressa bem maior e mais legítima que a minha: na verdade sou eu quem está no caminho dele.

Ou eu posso escolher me forçar a considerar a possibilidade que todas as outras pessoas na fila do caixa do supermercado estão tão entediadas e frustradas quanto eu, e que algumas destas pessoas tem vidas mais difíceis, tediosas e sofridas que a minha.

De novo, por favor não pense que eu estou dando recomendações morais, ou que eu estou dizendo que você deve pensar dessa maneira, ou que alguém espera que você automaticamente o faça. Poque é difícil. É preciso força de vontade e esforço, e se você é igual a mim, alguns dias você não conseguirá fazê-lo, ou pura e simplesmente não vai querer fazê-lo.

Mas na maioria dos dias, se você está consciente o suficiente para dar uma opção a você mesmo, você pode escolher olhar de maneira diferente para essa senhora gorda, inexpressiva e cheia de maquiagem que acabou de gritar com o filho na fila do caixa. Talvez ela não seja sempre assim. Talvez ela passou as últimas três noites em claro segurando a mão do marido que está morrendo de câncer nos ossos. Ou talvez essa mesma senhora é a atendente do DETRAN que recebe um salário mínimo e ontem mesmo ajudou sua esposa a resolver um terrível, enfurecedor e burocrático problema através de um simples ato de gentileza burocrática. É claro, nada disso é provável, mas também não é impossível. Apenas depende do que você quer considerar. Se você está automaticamente certo de que sabe o que é a realidade, e se você está operando dentro da sua configuração padrão, então você, assim como eu, provavelmente não vai considerar as possibilidades que não são inoportunas e deprimentes. Mas se você aprender a realmente prestar atenção, então você vai perceber que existem outras opções. Estará realmente em seu poder experimentar uma situação do tipo inferno do consumidor lotada, quente e lerda não somente de maneira significante, mas sagrada, queimando com a mesma força que criou as estrelas: amor, companheirismo, a identidade mística lá no fundo de todas as coisas.

Não que a parte mística seja necessariamente verdade. A única Verdade com V maiúsculo é que você pode decidir como você vai tentar vê-lo. Isso é, eu sugiro, a liberdade de uma educação real, de aprender a ser “bem ajustado”. Você pode conscientemente decidir o que tem significado e o que não tem. Você pode decidir o que cultuar.

Pois aqui vai outra coisa que é estranha, porém verdadeira: nas trincheiras do dia-a-dia da vida adulta, na realidade não existe algo tal qual o ateísmo. Não existe algo tal qual a não-adoração. Todo mundo cultua. A única escolha que temos é o que cultuar. E a razão que talvez nos força a escolher algum tipo de deus ou espiritualidade – seja Jesus Cristo ou Allah, seja o YHWH ou a Deusa Mãe Wicca, ou as Quatro Nobres Verdades, ou algum conjunto de princípios éticos invioláveis – é que todo o resto que você adorar vai te comer vivo. Se você cultua dinheiro e posses, se eles são o que te faz atingir o verdadeiro sentido da vida, então você nunca terá o suficiente, nunca sentirá que tem o suficiente. É a verdade. Cultue seu corpo e beleza e sensualidade e você sempre se sentirá feio. E quando o tempo e a idade começarem a aparecer, você morrerá um milhão de vezes antes deles finalmente sentirem pesar por você. Em algum nível, todos nós já sabemos disso. Já foi codificado como mitos, provérbios, clichés, ditados, parábolas; o esqueleto de todas as boas histórias. O truque é deixar a verdade na primeira fila da consciência diária.

Cultue poder, você vai acabar se sentindo fraco e com medo, e você sempre precisará de mais poder sobre os outros para anular seu próprio medo. Cultue seu intelecto, sendo visto como inteligente, você acabará se sentindo idiota, uma fraude, sempre à beira de ser descoberto. Mas a parte traiçoeira destas formas de adoração não é que elas sejam ruins ou pecaminosas, mas é que elas são inconscientes. Elas são configurações padrão.

Elas são o tipo de adoração em que você gradualmente cai, dia após dia, ficando cada vez mais e mais seletivo sobre o que você vê e como você mede valor sem nem mesmo se dar conta de que é isso que você está fazendo. E o chamado “mundo real” não irá te desencorajar de operar nas suas configurações padrão, porque o chamado “mundo real” de homens e dinheiro e poder cantarola alegremente numa poça de medo e raiva e frustração e desejo e adoração de si próprio  Nossa própria cultura atual colheu essas forças de maneiras que renderam riquezas e conforto e liberdade pessoal. A liberdade para sermos os senhores dos nossos pequenos reinos do tamanho de um crânio, sozinhos no centro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem muitas vantagens. Mas é claro que existem muitos tipos diferentes de liberdade, e o tipo que é mais precioso não é muito comentado no grande mundo exterior de precisar e alcançar e exibir. O tipo de liberdade realmente importante envolve atenção e consciência e disciplina, e estar apto a se importar autenticamente com outras pessoas, e a se sacrificar por elas repetidamente numa miríade de maneiras insignificantes e sem glamour todos os dias.

Isso é liberdade de verdade. Isso é ser educado, e compreender como pensar. A alternativa é a falta de consciência, a configuração padrão, a “corrida de ratos”, a constante sensação de ter tido e ter perdido alguma coisa infinita.

Eu sei que isso não parece divertido e alegre ou grandiosamente inspirador da maneira que um discurso de colação deve ser. O que é, da maneira que eu vejo, é a Verdade com V maiúsculo despida de todas as gentilezas retóricas. Você é, é claro, livre para interpretar isso da maneira que quiser. Mas, por favor, não dispense isso tal qual um sermão da Dra. Laura*. Nada disso aqui é sobre moralidade ou religião ou dogma ou grandes e elaboradas questões sobre vida após a morte. A Verdade com V maiúsculo se trata da vida antes da morte.

É sobre o valor de real de uma educação real, que não tem quase nada a ver com conhecimento, e tudo a ver com simples consciência; consciência do que é tão real e essencial, tão oculto à vista de todos nós, o tempo todo, que nós temos que ficar lembrando a nós mesmos, de novo e de novo:

“Isso é água. Isso é água.”

É inimaginavelmente difícil fazer isso, ficar consciente e vivo no mundo adulto, um dia após o outro. O que significa que outro grande cliché também é verdade: a sua educação realmente é o trabalho de uma vida toda. E começa agora.

Eu desejo a vocês muito mais que sorte.

* Celebridade que tem um programa sobre relacionamentos nos EUA.

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27.3.13

Cem Anos de Perdão

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa dessas brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então não pude mais.
O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas.
O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Clarice Lispector

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19.3.13

Procura-se

Rubem Braga 

Procura-se aflitivamente pelas igrejas e botequins, e no recesso dos lares e nas gavetas dos escritórios, procura-se insistente e melancolicamente, procura-se comovida e desesperadamente, e de todos os modos e com muitos outros advérbios de modo, procura-se junto a amigos judeus e árabes, e senhoras suspeitas e insuspeitas, sem distinção de credo nem de plástica, procura-se junto às estátuas e na areia da praia, e na noite de chuva e na manhã encharcada de luz, procura-se com as mãos, os olhos e o coração um pobre caderninho azul que tem escrita na capa a palavra “endereços” e dentro está todo sujo, rabiscado e velho.

Pondera-se que tal caderninho não tem valor para nenhuma outra pessoa de boa-fé, a não ser seu desgraçado autor.

Tem este autor publicado vários livros e enchido ou bem ou mal centenas de quilômetros de colunas de jornal e revista, porém sua única obra sincera e sentida é esse caderninho azul, escrito através de longos anos de aflições e esperanças, e negócios urgentes e amores contrariadíssimos, embora seja forçoso confessar que há ali números de telefone que foram escritos em momentos em que um pé do cidadão pisava uma nuvem e outro uma estrela e os outros dois… – sim, meus concidadãos, trata-se de um quadrúpede.

Eu sou um velho quadrúpede e de quatro joelhos no chão eu peço que me ajudeis a encontrar esse objeto perdido.

Pois eis que não perdi um simples caderno, mas um velho sobrado de Florença e um pobre mocambo do Recife, um arcanjo de cabelos castanhos residente em Botafogo em 1943, um doce remorso paulista e o endereço do único homem honrado que sabe consertar palhinha de cadeira no Distrito Federal.

O caderno é reconhecível para os estranhos mediante o desenho feito na folha branca do fim, representando Vênus de Milo em birome azul, cujo desenho foi feito pelo abaixo assinado no próprio Museu do Louvre, e nesse momento a deusa estremeceu.

Haverá talvez um número de telefone rabiscado no torso da deusa, assim como na letra K há trechos de um poema para sempre inacabado escrito com letra particularmente ruim.

Na segunda página da letra D há notas sobre vencimentos de humildes, porém nefandas dívidas bancárias, e com uma letra que eu não digo começa o nome de meu bem, que é todo o mal de minha vida.

Procura-se um caderninho azul escrito a lápis e tinta e sangue, suor e lágrimas, com setenta por cento de endereços caducos e cancelados e telefones retirados e, portanto, absolutamente necessários e urgentes e irreconstituíveis.

Procura-se, e talvez não se queira achar, um caderninho azul com um passado cinzento e confuso de um homem triste e vulgar… Procura-se, e talvez não se queira achar.

Outubro, 1948

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17.3.13

O Homem Nu

Ao acordar, disse para a mulher:

— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!

Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

— Maria, por favor! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

— Isso é que não — repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

— Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

— Tem um homem pelado aqui na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

— É um tarado!

— Olha, que horror!

— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

Não era: era o cobrador da televisão.

Fernando Sabino

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14.3.13

Poema XVI

Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
para o canto - desde os pássaros
.
A palavra sem pronúncia, ágrafa.
Quero o som que ainda não deu liga.
Quero o som gotejante das violas de cocho.
A palavra que tenha um aroma cego.
Até antes do murmúrio.
Que fosse nem um risco de voz.
Que só mostrasse a cintilância dos escuros.
A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma
imagem.
O antesmente verbal: a despalavra mesmo.

Manoel de Barros, in Retrato do artista quando coisa

Feliz Dia Nacional da Poesia - 14 de março

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11.3.13

Oração para Aviadores

Foto de Bruno Gorski

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.

Manuel Bandeira

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