6.5.12

O suor e a lágrima

Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

Carlos Heitor Cony

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5.5.12

Hoje é noite de Supermoon!

                     O nosso satélite natural está mais próximo de nós esta noite, logo, está 14% maior e 30% mais brilhante no céu. O fenômeno do perigeu, conhecido como Supermoon, acontece uma vez por ano. Em 2011, foi especial. Em 19 de março, tivemos a maior "Superlua" em 18 anos - ela estava 400 km mais perto da Terra do que estará hoje. Além da Lua, Marte, Saturno e Vênus poderão ser vistos a olho nu. Logo após o pôr-do-sol, o primeiro, com sua cor vermelha, estará bem alto no céu. O segundo maior planeta do Sistema Solar aparecerá com um brilho marrom próximo do horizonte leste. Já o nosso outro vizinho tem forte brilho prata e poderá ser observado no horizonte oeste.
                      O fenômeno alcança seu auge amanhã, 00h35. Que tal sair na sacada hoje e aproveitar? As próximas Supermoons só voltam a acontecer nos dias 19 de março de 2013 e 10 de agosto de 2014.





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Stranger in Paradise

Tony Bennett e Andrea Bocelli


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Tarde de Sábado

A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas.

Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido!

Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos.

Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita.

Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão.

E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos

Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

Cecília Meireles

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2.5.12

The Moonlight

Foto de Bruno Gorski

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Distrações

Um dia talvez se descubra para o que servem, ou serviram, coisas biologicamente inexplicáveis como o apêndice e as amígdalas. Há quem diga que Deus criou o apêndice e as amígdalas para dar de comer aos cirurgiões. Não sei. O fato é que, por exemplo, os mamilos masculinos e as unhas do pé só podem ser descritas como distrações da evolução. Foi esquecimento. Os mamilos nos homens seriam remanescentes de uma época em que, supostamente, todos os seres humanos eram hermafroditas e os bailes eram muito mais divertidos. As unhas dos pés serviam bem aos macacos mas nada justifica a sua existência em humanos nos dias de hoje ainda mais pintadas. Mas o maior exemplo de desleixo da evolução é a coluna vertebral. A evolução determinou que o homem andasse ereto sobre os dois pés, mas não adaptou nossa coluna para suas novas funções. Somos bípedes com uma estrutura de quadrúpedes, e como dói. Nossa coluna nos manda andar de quatro e o resto do corpo - para não falar nas regras da boa educação - nos diz para andar de pé. E não há sinal de que a coluna vertebral esteja se adaptando à nossa condição vertical. É cada vez maior o número de pessoas que sofrem da coluna. Ou seja, aumenta a pressão da coluna para que todos voltem a andar racionalmente sobre quatro patas. A biologia, ai de nós, também é reacionária.

Luís Fernando Veríssimo

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