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24.11.11
We Miss You.
I'm one card short of a full deck
I'm not quite the shilling
One wave short of a shipwreck
I'm not my usual top billing
I'm coming down with a fever
I'm really out to sea
This kettle is boiling over
I think I'm a banana tree...
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22.11.11
O Roubo da Pipa
O roubo da pipa
Quando era garoto, o menino Nicolao soltava pipa. Aqui mesmo pelas bandas da baixada fluminense, nos arredores de Itaguaí, pertinho da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Nicolao era aquele tipo de garoto que não se contentava em ver a pipa subir, ele queria ir junto com ela. A pipa ia, Nicolao se agarrava nela e se imaginava flutuando. Subia a pipa! Elevava-se Nicolao. De gozo em gozo, Nicolao ia como se não comandasse a pipa. Era a pipa que o embalava e levava.
Não havia quem não se admirasse do modo como Nicolao lidava com a pipa. Os outros meninos mantinham a pipa ali, sob a batuta de uma regência disciplinada, seguindo a pentagrama. Diferente, Nicolao não respeitava nenhuma clave de sol no seu caminho. Que pentagrama que nada! A pipa não era regida senão por uma incrível engenhoca que parecia estar no cérebro dos deuses. A pipa ia para um lado e lá também ia o Nicolao. Quando a pipa ia para outro, lá junto, descabelado e feliz ia o Nicolao.
A pipa sem comando, mas comandante, uma bela tarde levou Nicolao em direção ao poente, e atracou numa nuvenzinha marota, solitária, lá no alto do céu, bem na direção de uma touceira de bambu. Lá em baixo, balançando no fim do fio, o menino Nicolao foi se acomodando pelas folhas no chão, na sombra do bambuzal. Ali ficou, ronronando e comendo aqui e ali aquele azedinho do final de tocos de capim comprido. Nicolao sentia-se não só livre, mas em contato com todos os seres do universo que a Humanidade jamais ouvira falar e sequer pensar.
Foi aí que, inesperadamente, de dentro da touceira surgiu um moleque negro feito carvão molhado, com um barretinho vermelho na cabeça e uma enorme beiçola pendurada num cachimbo. Nicolao esfregou os olhos para ver se estava mesmo acordado, mas nem deu tempo dele certificar-se e … vupt! Lá se foi o garoto pelo buraco do nada. Por alguns segundos, Nicolao tentou ver se o moleque estava ao redor dele, mas não, havia mesmo sumido. Foi então que fazendo um gesto característico, ele puxou o fio da pipa, mas nenhuma resposta veio. Que pipa que nada, o pula-pula de cachimbo havia levado o amor do Nicolao, sua passagem para a terra dos sonhos.
Muitos anos depois, já adulto, Nicolao contou ao seu analista esse sonho. E eis que a terapia parou ali, e até hoje não foi retomada. O analista encasquetou! Ele quer porque quer saber qual a razão do ladrãozinho de pipa ter duas pernas! E eis que aquele garoto do bambu, ao final, acabou roubando também o analista do Nicolao.
Quando era garoto, o menino Nicolao soltava pipa. Aqui mesmo pelas bandas da baixada fluminense, nos arredores de Itaguaí, pertinho da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Nicolao era aquele tipo de garoto que não se contentava em ver a pipa subir, ele queria ir junto com ela. A pipa ia, Nicolao se agarrava nela e se imaginava flutuando. Subia a pipa! Elevava-se Nicolao. De gozo em gozo, Nicolao ia como se não comandasse a pipa. Era a pipa que o embalava e levava.
Não havia quem não se admirasse do modo como Nicolao lidava com a pipa. Os outros meninos mantinham a pipa ali, sob a batuta de uma regência disciplinada, seguindo a pentagrama. Diferente, Nicolao não respeitava nenhuma clave de sol no seu caminho. Que pentagrama que nada! A pipa não era regida senão por uma incrível engenhoca que parecia estar no cérebro dos deuses. A pipa ia para um lado e lá também ia o Nicolao. Quando a pipa ia para outro, lá junto, descabelado e feliz ia o Nicolao.
A pipa sem comando, mas comandante, uma bela tarde levou Nicolao em direção ao poente, e atracou numa nuvenzinha marota, solitária, lá no alto do céu, bem na direção de uma touceira de bambu. Lá em baixo, balançando no fim do fio, o menino Nicolao foi se acomodando pelas folhas no chão, na sombra do bambuzal. Ali ficou, ronronando e comendo aqui e ali aquele azedinho do final de tocos de capim comprido. Nicolao sentia-se não só livre, mas em contato com todos os seres do universo que a Humanidade jamais ouvira falar e sequer pensar.
Foi aí que, inesperadamente, de dentro da touceira surgiu um moleque negro feito carvão molhado, com um barretinho vermelho na cabeça e uma enorme beiçola pendurada num cachimbo. Nicolao esfregou os olhos para ver se estava mesmo acordado, mas nem deu tempo dele certificar-se e … vupt! Lá se foi o garoto pelo buraco do nada. Por alguns segundos, Nicolao tentou ver se o moleque estava ao redor dele, mas não, havia mesmo sumido. Foi então que fazendo um gesto característico, ele puxou o fio da pipa, mas nenhuma resposta veio. Que pipa que nada, o pula-pula de cachimbo havia levado o amor do Nicolao, sua passagem para a terra dos sonhos.
Muitos anos depois, já adulto, Nicolao contou ao seu analista esse sonho. E eis que a terapia parou ali, e até hoje não foi retomada. O analista encasquetou! Ele quer porque quer saber qual a razão do ladrãozinho de pipa ter duas pernas! E eis que aquele garoto do bambu, ao final, acabou roubando também o analista do Nicolao.
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
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20.11.11
Lovers in Japan
"They are turning my head out
To see what I'm all about
Keeping my head down
To see what it feels like now
And I have no doubt
One day the sun will come out"
Coldplay
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18.11.11
17.11.11
Segurança
O ponto de venda mais forte do condomínio era a sua segurança.
Havia as belas casas, os jardins, os playgrounds, as piscinas, mas havia, acima de tudo, segurança.
Toda a área era cercada por um muro alto. Havia um portão principal com muitos guardas que controlavam tudo por um circuito fechado de TV Só entravam no condomínio os proprietários e visitantes devidamente identificados e crachados.
Mas os assaltos começaram assim mesmo. Ladrões pulavam os muros e assaltavam as casas.
Os condôminos decidiram colocar torres com guardas ao longo do muro alto. Nos quatro lados. As inspeções tornaram-se mais rigorosas no portão de entrada. Agora não só os visitantes eram obrigados a usar crachá. Os proprietários e seus familiares também. Não passava ninguém pelo portão sem se identificar para a guarda. Nem as babás. Nem os bebês.
Mas os assaltos continuaram.
Decidiram eletrificar os muros. Houve protestos, mas no fim todos concordaram. O mais importante era a segurança. Quem tocasse no fio de alta tensão em cima do muro morreria eletrocutado. Se não morresse, atrairia para o local um batalhão de guardas com ordens de atirar para matar.
Mas os assaltos continuaram.
Grades nas janelas de todas as casas. Era o jeito. Mesmo se os ladrões ultrapassassem os altos muros, e o fio de alta tensão, e as patrulhas, e os cachorros, e a segunda cerca, de arame farpado, erguida dentro do perímetro, não conseguiriam entrar nas casas. Todas as janelas foram engradadas.
Mas os assaltos continuaram.
Foi feito um apelo para que as pessoas saíssem de casa o mínimo possível. Dois assaltantes tinham entrado no condomínio no banco de trás do carro de um proprietário, com um revólver apontado para a sua nuca. Assaltaram a casa, depois saíram no carro roubado, com crachás roubados. Além do controle das entradas, passou a ser feito um rigoroso controle das saídas. Para sair, só com um exame demorado do crachá e com autorização expressa da guarda, que não queria conversa nem aceitava suborno.
Mas os assaltos continuaram.
Foi reforçada a guarda. Construíram uma terceira cerca. As famílias de mais posses, com mais coisas para serem roubadas, mudaramse para uma chamada área de segurança máxima. E foi tomada uma medida extrema. Ninguém pode entrar no condomínio. Ninguém. Visitas, só num local predeterminado pela guarda, sob sua severa vigilância e por curtos períodos. E ninguém pode sair.
Agora, a segurança é completa. Não tem havido mais assaltos.
Ninguém precisa temer pelo seu patrimônio. Os ladrões que passam pela calçada só conseguem espiar através do grande portão de ferro e talvez avistar um ou outro condômino agarrado às grades da sua casa, olhando melancolicamente para a rua.
Mas surgiu outro problema. As tentativas de fuga. E há motins constantes de condôminos que tentam de qualquer maneira atingir a liberdade. A guarda tem sido obrigada a agir com energia.
Havia as belas casas, os jardins, os playgrounds, as piscinas, mas havia, acima de tudo, segurança.
Toda a área era cercada por um muro alto. Havia um portão principal com muitos guardas que controlavam tudo por um circuito fechado de TV Só entravam no condomínio os proprietários e visitantes devidamente identificados e crachados.
Mas os assaltos começaram assim mesmo. Ladrões pulavam os muros e assaltavam as casas.
Os condôminos decidiram colocar torres com guardas ao longo do muro alto. Nos quatro lados. As inspeções tornaram-se mais rigorosas no portão de entrada. Agora não só os visitantes eram obrigados a usar crachá. Os proprietários e seus familiares também. Não passava ninguém pelo portão sem se identificar para a guarda. Nem as babás. Nem os bebês.
Mas os assaltos continuaram.
Decidiram eletrificar os muros. Houve protestos, mas no fim todos concordaram. O mais importante era a segurança. Quem tocasse no fio de alta tensão em cima do muro morreria eletrocutado. Se não morresse, atrairia para o local um batalhão de guardas com ordens de atirar para matar.
Mas os assaltos continuaram.
Grades nas janelas de todas as casas. Era o jeito. Mesmo se os ladrões ultrapassassem os altos muros, e o fio de alta tensão, e as patrulhas, e os cachorros, e a segunda cerca, de arame farpado, erguida dentro do perímetro, não conseguiriam entrar nas casas. Todas as janelas foram engradadas.
Mas os assaltos continuaram.
Foi feito um apelo para que as pessoas saíssem de casa o mínimo possível. Dois assaltantes tinham entrado no condomínio no banco de trás do carro de um proprietário, com um revólver apontado para a sua nuca. Assaltaram a casa, depois saíram no carro roubado, com crachás roubados. Além do controle das entradas, passou a ser feito um rigoroso controle das saídas. Para sair, só com um exame demorado do crachá e com autorização expressa da guarda, que não queria conversa nem aceitava suborno.
Mas os assaltos continuaram.
Foi reforçada a guarda. Construíram uma terceira cerca. As famílias de mais posses, com mais coisas para serem roubadas, mudaramse para uma chamada área de segurança máxima. E foi tomada uma medida extrema. Ninguém pode entrar no condomínio. Ninguém. Visitas, só num local predeterminado pela guarda, sob sua severa vigilância e por curtos períodos. E ninguém pode sair.
Agora, a segurança é completa. Não tem havido mais assaltos.
Ninguém precisa temer pelo seu patrimônio. Os ladrões que passam pela calçada só conseguem espiar através do grande portão de ferro e talvez avistar um ou outro condômino agarrado às grades da sua casa, olhando melancolicamente para a rua.
Mas surgiu outro problema. As tentativas de fuga. E há motins constantes de condôminos que tentam de qualquer maneira atingir a liberdade. A guarda tem sido obrigada a agir com energia.
Luís Fernando Veríssimo
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16.11.11
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