28.1.13

O Menino Azul

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.


O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
- de tudo o que aparecer.


O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.


E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.


(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Cecília Meireles

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Young@Heart

"Ofereceram-me um emprego para servir refeições a idosos. Como vinha com seguro de vida, aceitei. Eu tinha algumas pessoas idosas maravilhosas em minha vida, então estava intrigado com o emprego. Depois de um ano, aproximadamente, Judith Sharpe se aproximou de mim e perguntou se eu poderia achar algumas pessoas para cantarem onde ela tocaria piano. Foi assim que tudo começou em 1982." - Bob Cilman

O Young at Heart é um coral completamente diferente de tudo que se conhece. Composto por idosos de 73 a 89 anos, com uma energia que contagia qualquer um, eles formam um dos conjuntos mais bonitos que conheço (se não for o mais bonito!). Aprender com a felicidade e o bem-estar dessas pessoas é uma experiência que se leva para sempre.

Como você descreveria o Young@Heart comparado com os outros corais?
Eu não saberia como começar. Eu penso que o que fazemos é único. [...] Eu acho que temos uma abordagem honesta com a música e trazemos para ela toda a energia necessária para o Rock and Roll.





Este é Fred Knittle. Seu amigo e parceiro para esta música morreu uma semana antes da apresentação. Ele mesmo sabia que morreria logo. Ele estava muito doente e essa foi sua última música com o coral. Com 83 anos, Fred interpreta Fix You, da banda Coldplay. Um show sem comparação.


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27.1.13

Abraão e Isaque

Caravaggio, Abraão e Isaque

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho.

Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: "Abraão, Abraão, não estendas tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto." E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.



Muitos anos depois:

- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...

- Você era um menino...

- Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

- Era a voz do anjo me falando dos céus.

- Não ouvi a voz do anjo. Ouvi os trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atónitos, chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!

- Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimónia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

- Um horror.

- Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

- Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu os meus olhos cheios de água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

- O fio do cutelo encostou na minha garganta.

- Mas eu não o matei!

- Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

- O que é que eu sei?

- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

- Ele estava me testando.

- Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atónitos. E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

- Era o anjo do Senhor falando comigo.

- Eram trovões.

- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

- Na origem de todos os povos há uma cerimónia de sangue.

- Então na origem de todos os povos há uma abominação.

- Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

- Por todos os tempos, pai.

Luís Fernando Veríssimo. Extraído de Banquete com os deuses.

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23.1.13

Tempo Perdido, Wagner Moura

Em homenagem ao sr. Gabriel Ribela, um clipe que ele gosta muito. E eu, afinal, acabei gostando muito também. Wagner Moura e Aline Moraes interpretam Tempo Perdido, do Legião Urbana. Cena do filme O Homem do Futuro. (Coloquei o clipe oficial embaixo para quem quiser ver mais uns trechinhos!)
Have fun!

ENTÃO ME ABRAÇA FORTE!






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Uma Crença Silenciosa em Anjos



O livro é de R. J. Ellory. A história se passa, primeiramente, em 1939. Digo "primeiramente" porque toda a trama é, em realidade, uma história de muitos anos, uma história de assassinatos que deixaram uma sombra de horror na alma de um garoto, nossa personagem principal, Joseph Vaugham. Na comunidade rural em que sua família vivia, começam os assassinatos de suas colegas de escola. Ele tinha apenas 12 anos quando a primeira foi encontrada morta. Os crimes prosseguem por uma década. Joseph e seus amigos decidem proteger o lugar e formam o grupo "Os Guardiões". Mas ele não consegue deter o monstro que ronda a cidadezinha. Quando o passado parece enterrado, os crimes cessam, Joseph descobre que ainda não enfrentou tudo. Sua vida, uma sucessão de tragédias, nos ensina muito sobre superação e o que se sacrifica em nome disso. Expondo a claustrofobia das comunidades fechadas, o preconceito e a intolerância, o romance é fantástico. O tema, a natureza da injustiça e do mal, trabalhado sob a ótica de Joseph é irresistível ao leitor. As páginas seguem e, a cada capítulo, parece impossível fazer valer a verdade.

Quem lê não esquece. Minha dica.

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21.1.13

Don't Let Me Be Misundesrtood

Nina Simone

[...]

"I'm just human
Don't you know I have faults like anyone?

Sometimes I find myself alone regreting
some little foolish thing
some simple thing that I've done

'Cause I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

I try so hard to please...
So don't let me be misunderstood."


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19.1.13

Parque dos Falcões, SE

A aproximadamente 45 Km de Aracaju, localizado aos pés da Serra de Itabaina-SE, o Parque dos Falcões foi construído através do trabalho e esforço de dois sonhadores, José Percílio e Alexandre Correia.
Alexandre tornou-se "cúmplice" de Percílio no ano de 1999, mas a história do Instituto começou ainda na infância do fundador. Aos 7 anos, Percílio ganhou um ovo de Carcará (Caracara plancus), e depois de 28 dias sendo chocado por uma galinha, nasceu Tito, seu primeiro grande amigo. Hoje, Tito tem 25 anos e o Instituto cuida de mais de 300 aves, entre gaviões, falcões, corujas, socós-boi, pombos, etc.
Já conhecido por muitos turistas, estudantes, biólogos, e pesquisadores brasileiros e estrangeiros, o Instituto é um dos poucos locais do país com autorização do IBAMA para a criação dessas aves em cativeiro. Com o objetivo de proteger as espécies de aves de rapina que habitam o céu brasileiro, o Parque dos Falcões tornou-se uma referência mundial no manejo, reprodução e reabilitação desses animais, acumulando um grande conhecimento sobre o seu comportamento.
O Parque dos Falcões está aberto ao público todos os dias da semana.
Agende uma visita e apaixone-se!








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Mensagem à Poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível

Agora não pode ser
É impossível
Não posso.

Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe
; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim
, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão
, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.


Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida
, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas,
olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio
; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo

A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir

Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.


Vinícius de Moraes

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18.1.13

Diga Lá, Coração

[...]

Diga lá, meu coração
Da alegria de rever essa menina,
E abraçá-la,
E beijá-la.

Diga lá, meu coração
Conte as estórias das pessoas,
Nas estradas dessa vida.
Chore esta saudade estrangulada
Fale, sem você não há mais nada
Olhe bem nos olhos da morena e veja lá no fundo
A luz daquela primavera.

[...]

Gonzaguinha


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Brincadeira

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
- Eu sei de tudo.
Depois de um silêncio, o outro disse:
- Como é que você soube?
- Não interessa. Sei de tudo.
- Me faz um favor. Não espalha.
- Vou pensar.
- Por amor de Deus.
- Está bem. Mas olhe lá, hein?
Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Mas é impossível. Como é que você descobriu?
A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
- Alguém mais sabe?
- Outras se tornavam agressivas:
- Está bem, você sabe. E daí?
- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
- Se você contar para alguém, eu...
- Depende de você.
- De mim, como?
- Se você andar na linha, eu não conto.
- Certo
Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
- Eu sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Não sei. O que é que você sabe?
- Não se faça de inocente.
- Mas eu realmente não sei.
- Vem com essa.
- Você não sabe de nada.
- Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?
- Não existe nada.
- Olha que eu vou espalhar...
- Pode espalhar que é mentira.
- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
- Está bem. Vou espalhar.
Mas dali a pouco veio um telefonema.
- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
- Aquilo o quê?
- Você sabe.
Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
- Você contou pra alguém?
- Ainda não.
- Puxa. Obrigado.
Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
- Por que eu? – quis saber.
- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.
- Por quê?
- Pela sua discrição.
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia distante. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que se ouvia era a dele, gritando:
- Era brincadeira! Era brincadeira!
Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais.

Luís Fernando Veríssimo. Comédias da Vida Privada.

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